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Estrada para Damasco

Um blogue sobre comunicação clara de ciência

Mas tu comunicas ciência?

10.04.20 | Cristina Nobre Soares

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Não, não comunico ciência. Nem o poderia fazer dado que, apesar de ter formação em ciência, não sou investigadora nem cientista. Nem jornalista de ciência. Afinal, ninguém deve (porque infelizmente pode) falar daquilo que não sabe.

Então o que é que eu faço? Eu ajudo, preparo, ensino investigadores e cientistas a comunicarem a ciência que fazem de uma forma mais clara e acessível a todos. A todos. De todos para todos.

Quando me perguntam se eu sou uma especialista, respondo que não. Que o meu trabalho não tem como objectivo tornar-me uma especialista, uma referência no meio e entre pares, até porque, tal como o meu pai diria, para sê-lo precisaria de ter umas unhas para tocar essa guitarra, que não tenho. E felizmente tenho essa noção, a do que sei e não sei.

Não, o meu trabalho em comunicação clara de ciência não tem como objectivo tornar-me numa especialista, muito menos é um modo de me pôr em “bicos dos pés” no meio de quem sabe mais do que eu. Tem outro, talvez mais lírico, que é fazer-me sentir verdadeiramente útil neste mundo. Ter uma utilidade na vida dos outros, ao partilhar algo que sei, algo que outras pessoas me ensinaram e que hoje, depois de muitas, muitas horas de trabalho e aprendizagem, eu ensino a outros.

Sim, ganho dinheiro com isso. Até porque já tentei várias vezes pagar o meu supermercado e a minha conta da luz com sentido de cidadania e de missão e responderam-me, que sim senhora, muito lindo, mas, se não se importar, aqui a gente só aceita mesmo dinheiro. Sim, há quem me pague para fazer isto. Sou uma sortuda, ando a ser paga para fazer uma coisa na qual acredito profundamente. Tenho a noção de que poucas pessoas nesta vida terão esta sorte. Ainda que, como todas as sortes verdadeiras, a minha me tenha custado muito suor e lágrimas.

Por isso, respondendo à pergunta se eu comunico ciência, não, eu não comunico ciência. Eu sou a mulher da máquina de escrever na feira, aquela que escrevia cartas ditadas por quem não era bom com as palavras, aquela que ajudava a pôr as saudades, as alegrias, as tristezas, as coisas triviais dos dias, em palavras, garantindo que quem as recebesse as sentiria como se estivesse ali a ouvi-las. Só que isto em ciência. Que, sendo feita de pessoas para pessoas, também tem muito mais coisas dentro dela, para além da validação dos pares.

Sim, sou, orgulhosamente, a mulher da máquina de escrever. Não tenho mais pretensões. E isto não é modéstia. É ter noção. E pronto, ser bastante esperta, que é coisa que realmente me assiste, aqui que ninguém nos ouve. E também saber, de uma forma muito límpida, o que eu quero desta vida, (embora tenha demorado quarenta anos para o saber, mas isso, é outra conversa). Ouvir, por cada turma que me passa pelas mãos, um, dois, três alunos dizerem-me que o que eu lhes ensinei fez todo o sentido, que já não conseguem olhar para o que escrevem da mesma maneira, é o que me basta. É que me faz sentir que ando aqui nesta vida a fazer alguma coisa de útil, que não ando aqui só a fazer peso à terra.

Sabem? Eu não sou cientista nem investigadora mas acredito com o corpo todo, com todas as células do meu corpo, na ciência. Foi a ciência que nos trouxe até aqui numa maravilhosa passagem de testemunho. Testemunho, esse, resultado da extraordinária capacidade da humanidade transcender a sua condição de carbono e hidrogénio. E eu sinto-me imensamente privilegiada por poder ser a mulher da máquina de escrever entre essas mentes brilhantes que continuam a perpetuar esse testemunho.

É apenas isto que eu faço. Nada mais.

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