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Estrada para Damasco

Um blogue sobre comunicação clara de ciência

Ciência Clara na Montis

07.11.19 | Cristina Nobre Soares

 

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Esta semana, estive na Montis, em Vouzela, a dar uma formação de "Comunicar Ciência Clara". 

Embora as pessoas que estiveram nesta formação não sejam académicos, como trabalham em conservação da Natureza enfrentam bastantes dificuldades ao comunicar conteúdos técnicos desta área. Afinal, nem toda a gente sabe o que é uma retancha, uma sementeira directa ou uma escorrência. Foi um desafio muito engraçado, especialmente por me ter feito regressar "às bases", dado que o meu ramo de especialização é Gestão de Recursos Naturais. 

Realmente, quando falamos em ciência pensamos automaticamente em academia e, embora os meus cursos anteriores tenham sido dirigidos mais a investigadores e docentes universitários, esta formação da Montis lembrou-me mais uma grande verdade: a ciência está em todo o lado. E é exactamente por isso que é tão importante comunicar algo que é de todos para todos. 

Foram 2 dias bem intensos, que passaram a voar com este grupo de gente interessada e motivada. Mas nada como saberem a opinião deles na primeira pessoa, aqui: https://montisacn.blogspot.com/2019/11/falar-claro.html

E os pasteis de Vouzela, deuses, que não há ciência que explique esta maravilha!

 

Um gira-discos, giz e um quadro

06.11.19 | Cristina Nobre Soares

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A melhor apresentação na área das ciências a que assisti até hoje foi a de um colega de turma, quando frequentei o mestrado de Sistemas de Informação Geográfica do Técnico.

A disciplina em questão era Detecção Remota, a qual falava de coisas como imagem de satélite e análise dessas imagens (por exemplo, para contabilizar áreas ardidas). Tínhamos de escolher um tema e apresentá-lo em 15 minutos. Eu escolhi falar sobre um projecto da NASA, e fiz uma coisa muito armada aos cucos, tão armada aos cucos, que ninguém percebeu sobre o que era.

Justiça seja feita, o meu trabalho não foi o único a sofrer do mesmo mal. Um após outro, os alunos iam apresentando coisas muito complexas, com slides a transbordar de informação em Arial 10. Coisas chatíssimas de morrer.

Até que um dos alunos, o Gonçalo, se levanta para apresentar o seu trabalho com um gira-discos portátil e um vinil debaixo do braço. Antes de pôr o vinil a tocar esclareceu-nos que iríamos ouvir uma peça de Brahms. No fim da peça, pegou num pedaço de giz e disse: esta peça só chegou até nós porque uma parte do espectro electromagnético a salvou. Através dela conseguiu-se recuperar um único disco desta peça, que estava extremamente danificado. Olhou para nós (ainda todos em silêncio) e acrescentou sorrindo: não sei se esta história é verdade, foi-me contada por um professor, mas achei que era uma boa forma de começar a minha apresentação.

A partir daí, a  apresentação foi feita apenas com giz e quadro, explicando como o processo tinha sido feito, sem qualquer outro recurso. Mas também não era preciso, nós, que o ouvíamos, já estávamos rendidos.

Nesse dia aprendi o poder de uma boa história. E como estas nos podem dar bons encontros com a ciência. Para mim este, através do Gonçalo, foi inesquecível.

O primeiro post

06.11.19 | Cristina Nobre Soares

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Acho que de uma maneira ou de outra todos temos a nossa estrada para Damasco. Os sortudos talvez até tenham várias estradas destas ao longo da vida.

A minha começou em 2015 quando, em plena mudança de vida, tive a oportunidade de trabalhar na Português Claro. Cheguei lá cheia de mim, convencidíssima que escrevia como manda a sapatilha, assim coisas realmente em bom. Mas, depressa, aquela equipa, que tem uma missão mais do que fundamental num país onde a iliteracia ainda é grande demais, mostrou-me todo um novo mundo: a linguagem clara. E ensinou-me que o direito a entender e a sermos entendidos é também uma forma de sermos livres.

Depois desse ano na Português Claro comecei a trabalhar como copywriter (mais lá para a frente faço um post a explicar o que isto é), ajudando as empresas a contar as suas histórias e a encontrar a sua identidade verbal (voz da marca).

O que vocês não sabem é que não sou de letras. Sou licenciada em Engenharia Florestal. Quando ali, algures no segundo parágrafo, vos falei de uma mudança de vida falava da altura em que larguei a engenharia e as aulas que dava num politécnico (se bem que desconfio que foram elas que me deixaram a mim) para me dedicar à escrita.

Mas o problema é que o “ser de ciências” é uma pertença demasiado forte para se meter na gaveta. Ser de ciências é também aquilo que sou. E talvez por isso, assim que comecei a trabalhar em linguagem clara, juntar estes dois mundos, ciência e linguagem clara, fez todo o sentido para mim.

A passagem de conhecimento e a ciência trouxeram-nos até aqui, até a este porto, cheio de tecnologia e esperança de vida, onde estamos. Mas, curiosamente, num tempo onde é tão fácil aceder a qualquer tipo de informação, ainda continua a ser difícil estabelecer uma conversa entre a ciência e os comuns mortais. Uns dirão que a culpa é da torre de marfim da qual a academia se recusa a descer. Outros dirão que é da falta de interesse e espírito crítico desses mortais.

Não sei.

Só sei que acredito profundamente numa ciência para todos. E que a linguagem clara pode ser a estrada que nos levará até esse sítio.

E este blogue é sobre isso.

 

(Imagem:Calvin & Hobbes - Bill Watterson)

 

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