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Estrada para Damasco

Um blogue sobre comunicação clara de ciência

A Fada dos Dentes 2020 ou da importância da esperança  

15.10.20 | Cristina Nobre Soares

 

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A Francisca Coutinho, investigadora no INSA - Ricardo Jorge e que participou no curso “Comunicar Ciência Clara”, escreveu este apelo como texto final.

A Francisca trabalha num projecto de investigação que precisa muito da vossa ajuda. Precisa dos dentes de leite dos vossos filhos, para poder salvar vidas de outras crianças.

Leiam o texto, partilhem e ajudem estas “fadas dos dentes” como puderem.

Se quiserem saber mais contactem-na pelo email: francisca.coutinho@insa.min-saude.pt

 

A doença

Não deve haver muitas alegrias iguais à de vermos um filho dar os primeiros passos, ou dizer as primeiras palavras. E o melhor de tudo é que essa alegria não se limita a esses momentos: estende-se no tempo e renova-se a cada nova palavra ou corrida.

 

Agora imaginem que tinham o desgosto (mais do que isso, o desespero) de assistir à perda de cada uma dessas conquistas. Imaginem que, aos poucos, viam os vossos meninos deixarem de conseguir construir frases, ou de dizer palavras que, dantes, sabiam de cor... Que os viam deixar de conviver com as outras crianças e fecharem-se cada vez mais no seu próprio mundo; que se tornavam tristes ou agressivos sem motivo aparente. Imaginem, por fim, que até de andar deixavam de conseguir, ficando presos a uma cadeira de rodas… Tudo isto num lento e doloroso processo para o qual ainda ninguém encontrou remédio.

Este cenário que descrevo, e que parece um pesadelo, é a realidade de alguns pais. É verdade: o quadro assustador que pintei acima, não é mais do que um pequeno resumo daquilo a que os médicos chamam a progressão clínica de um doente com Mucopolissacaridose tipo III. O nome é impronunciável, eu sei, mas traz consigo esta realidade assustadora.

 

O que estamos a fazer contra essa doença

É nessa doença na qual temos trabalhado ao longo dos últimos dez anos, para tentar arranjar formas de a tratar. Mas como não podemos testá-las logo nos doentes, temos de testá-las em células, depois em ratinhos e, só mais tarde, podemos pensar em testá-las em humanos.

Quando dizemos células estamos a referir-nos aos pequenos blocos de construção do corpo humano. Qualquer órgão é formado por milhares de células – da mesma forma que uma daquelas grandes construções de Lego de que os miúdos tanto gostam, é formada por milhentas peças. Dependendo do tipo de órgão, essas células têm diferentes características. Por isso, é muito diferente ver uma amostra de sangue, ou olhar ao microscópio para o bocadinho de pele que recolhemos após uma biópsia na ida ao dermatologista. No nosso laboratório, recebemos biópsias de pele. Portanto, é nas células de pele dessas biópsias que temos andado a trabalhar, dando-lhes medicação de maneira a perceber se elas melhoram.

Chegados a este ponto, há duas notícias que queremos partilhar: uma é boa, a outra é má. A boa enche-nos de orgulho; a má, de preocupação. E é para tentar ultrapassar essa preocupação que pedimos ajuda.

 

Comecemos então pela boa notícia: o tratamento está a funcionar! Depois de medicadas, as células da pele dos doentes estão a recuperar características de células normais. Mas, falta a má: aquilo que vemos nas células de pele pode não ser igual ao que veríamos noutras partes do organismo, mesmo que pertencessem aos mesmos doentes.

Portanto, no caso desta doença rara, o que importava mesmo não era estudar as células de pele; era ver se o tratamento funciona nas células do cérebro, porque é aí que está o grande problema. Só que não se podem fazer biópsias ao cérebro!

A alternativa que temos é usar umas células muito especiais: as famosas células estaminais. O que torna estas células tão fora de série é a capacidade que elas mantêm de se diferenciarem. Ou seja, desde que saibamos como ‘incentivá-las’, podemos levá-las, no laboratório, a transformar-se em células especializadas de qualquer tipo de órgão. E isso inclui o cérebro.

 

O pedido de ajuda

E é aqui que entra o nosso pedido de ajuda. Sim, porque essas células estaminais não existem só no cordão umbilical. Também existem nos dentes de leite dos nossos filhos – dos vossos filhos. Só precisamos que estejam dispostos a ceder-nos um desses dentinhos quando ele cair, de preferência um canino ou um incisivo. Não é difícil. Basta contactarem-nos quando o dentito começar a abanar, para que possamos preparar um líquido próprio e enviá-lo para as vossas casas a tempo. Depois, é só colocar o dente nesse líquido e enviá-lo para o nosso laboratório. Uma vez cá chegado, vamos parti-lo de modo a conseguir retirar as células que estão no seu interior, numa parte mole chamada polpa dentária. Nós, com muito cuidado e bastante paciência, vamos dar-lhes uma série de estímulos que hão-de ajudar a que elas se transformem, aos poucos, em células do cérebro. E vai ser nessas células que vamos testar os tratamentos em que temos vindo a trabalhar para esta doença, para perceber se eles funcionam e se são seguros.

No fundo, somos uma espécie de assistentes laboratoriais da Fada dos Dentes, numa interpretação mais moderna daquela tradição segundo a qual os meninos colocavam um dente debaixo da almofada, à espera da recompensa que chegaria na manhã seguinte.

Esta Fada dos Dentes do novo milénio não vos promete a moedinha debaixo da almofada dos vossos pequenos, é verdade. Mas acho que lhes trará algo melhor: a certeza de que, com aquele dente que lhe oferecerem, poderão vir a ajudar outra criança e os seus pais a ter esperança no futuro. E se há coisa que 2020 nos mostrou a todos é a importância da saúde e o valor da esperança. Poderá haver recompensa melhor?

 

imagem:thebump.com

 

 

 

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