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Estrada para Damasco

Um blogue sobre comunicação clara de ciência

Carbono nas florestas: a importância de quantificá-lo com rigor

15.04.20 | Cristina Nobre Soares

A Alexandra Correia é  investigadora no Centro de Estudos Florestais (Instituto Superior de Agronomia) e participou na 3ª edição do Comunicar Ciência Clara. A Alexandra, entre outras coisas, estuda o impacto das alterações climáticas nas florestas portuguesas.

Este foi o texto final que ela escreveu para o curso.

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“Inverno de Março e seca de Abril, deixam o lavrador a pedir”

Esta é uma realidade cada vez mais frequente em Portugal. A principal causa é a alteração do clima provocado pelo aumento da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera, como o dióxido de carbono e o metano. As Primaveras são cada vez mais quentes e secas e as consequências são graves para todos nós: o agricultor não produz, a água é racionada e os fogos são mais frequentes e de grandes dimensões.

Ainda que seja prioritário reduzirmos as fontes de emissão destes gases com efeito de estufa, podemos utilizar as florestas para retirar grandes quantidades de um dos gases mais importantes na atmosfera: o dióxido de carbono.

 

E como é que as árvores conseguem fazer isso?

As folhas absorvem o dióxido de carbono através de processos químicos muito complexos, como por exemplo a fotossíntese. Juntamente com a radiação do sol, a água e os nutrientes absorvidos nas raízes, as plantas produzem matéria orgânica e, a partir desta, são construídas as folhas, ramos, tronco e raízes que a constituem. É na madeira que se encontra o carbono que a planta inicialmente absorveu da atmosfera e aqui pode ficar retido por longos períodos de tempo. Mesmo depois da árvore ser cortada.

Mas será que existem diferenças no armazenamento de carbono na madeira de um eucalipto e no de um sobreiro? E entre uma floresta densa e outra com menos árvores? Sim, existe. E estas diferenças são muito grandes.

Sabemos que são grandes porque existem metodologias específicas, desenvolvidas para calcular de forma rigorosa o carbono que cada espécie de árvores consegue armazenar. Estas metodologias envolvem cortar, medir, separar e pesar as folhas, ramos, tronco, casca e raízes das árvores. Por exemplo, sabia que um pinheiro manso adulto pode conter mais de 2 toneladas de carbono?

A partir daqui desenvolvem-se os modelos alométricos, que são equações que permitem calcular o carbono armazenado numa árvore a partir de variáveis fáceis de medir, como por exemplo o seu diâmetro e a sua altura. Outro exemplo são os factores de expansão de biomassa, que são valores que permitem converter a madeira comercializável na quantidade de carbono total que existe na árvore.

 

E porque é que é importante saber calcular correctamente este carbono nas árvores?

Por várias razões. Por exemplo, os países que assinaram acordos de redução de emissões de gases com efeito de estufa podem utilizar o carbono armazenado nas suas florestas para atingir as suas metas de redução. Para que esta quantificação seja correcta, fiável e comparável é preciso trabalhar com o melhor conhecimento existente para cada espécie e local.

Só assim o mundo poderá, de forma justa, traçar um plano coerente que utilize as florestas para ajudar a cumprir esta tarefa colossal que é evitar a mudança do clima do planeta.

Foto: Nit.pt