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Estrada para Damasco

Um blogue sobre comunicação clara de ciência

Sabia que as plantas podem ajudar a combater a COVID19?

19.04.21 | Cristina Nobre Soares

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E agora estão a pensar: lá vem mais um chazinho ou talvez mesmo uma fumigação ou outra qualquer mezinha que é a cura milagrosa para todo o tipo de males, até contra a COVID. Mas não, a minha história é sobre técnicas de 𝒎𝒐𝒍𝒆𝒄𝒖𝒍𝒂𝒓 𝒇𝒂𝒓𝒎𝒊𝒏𝒈, que usam plantas para ajudar a combater doenças.
 
𝙈𝒐𝒍𝒆𝒄𝒖𝒍𝒂𝒓 𝒇𝒂𝒓𝒎𝒊𝒏𝒈, que podemos traduzir por agricultura molecular, é um conjunto de técnicas que usa plantas para produzir proteínas ou outras moléculas para fins terapêuticos, como a prevenção ou mesmo o tratamento de doenças humanas. Essas plantas são normalmente plantas agrícolas, como a 𝘕𝘪𝘤𝘰𝘵𝘪𝘢𝘯𝘢 𝘣𝘦𝘯𝘵𝘩𝘢𝘮𝘪𝘢𝘯𝘢, uma “prima” do tabaco.
 
As plantas são usadas como fábricas para a produção de anticorpos, os quais são proteínas produzidas pelo sistema imunitário de todos os vertebrados, incluindo o Homem. Os anticorpos defendem os organismos contra agentes patogénicos, ou seja, causadores de doenças, como vírus e bactérias. São vários os exemplos de vacinas produzidas em plantas, tais como as do vírus da raiva, da hepatite B e rotavírus, mas o exemplo mais notável são os anticorpos obtidos contra o vírus Ébola.
 
Outro exemplo é a produção de antigénios para os testes de COVID. Antigénios são porções dos agentes patogénicos que desencadeiam a produção de anticorpos. Os testes detectam a presença de anticorpos nas pessoas testadas, indicando assim se estiveram ou não em contacto com o vírus. Para os testes é necessário ter acesso a grandes quantidades de antigénios, o que, mais uma vez, pode ser conseguido através de técnicas 𝘮𝘰𝘭𝘦𝘤𝘶𝘭𝘢𝘳 𝘧𝘢𝘳𝘮𝘪𝘯𝘨.
 
A produção de molécula de vírus humanos em plantas tem grandes vantagens relativamente à sua obtenção em animais. A mais importante é uma questão de segurança, pois estes vírus, que causam doenças no homem, não são capazes de infectar plantas e assim não há o perigo de se replicarem e causarem danos. Outra grande vantagem é a rapidez de fabrico, pois estas moléculas podem ser obtidas muito mais rapidamente em plantas do que em sistemas animais (como por exemplo, os ovos de galinha).
 
Estas técnicas abrem alternativas terapêuticas atraentes e com inúmeros benefícios tais como a vacinação através da ingestão de frutos que comemos todos os dias.
 
Quem sabe se num futuro próximo ao comer uma maçã ou uma banana não podemos ficar vacinados contra uma qualquer doença?
 
Autora: Leonor Cecílio, Professora auxiliar na secção de genética da DRAT (Departamento de Recursos Naturais, Ambiente e Território) do Instituto Superior de Agronomia.